Criado por Messias Henrique Dias Soares © 2016

O novo vício das abelhas

     

      Os agrotóxicos atualmente fazem parte do cotidiano do produtor rural e são necessários para manter os altos índices de produtividade das lavouras. Suas vantagens são incontestáveis, a crescente demanda por alimentos e o limitado espaço cultivável juntamente com as condições de plantio não são suficientes para saciar o atual sistema de consumo.

        Por outro lado, os agrotóxicos possuem também um grande potencial de causar danos no meio onde são aplicados. Pesticidas e fungicidas são compostos que prejudicam o desenvolvimento biológico, a reprodução e continuidade da vida, e afetam muito além que os alvos sobre os quais foram lançados. Nas últimas décadas diversos trabalhos científicos têm sido desenvolvidos visando averiguar os impactos da utilização desses químicos no meio ambiente, suas implicações nos seres vivos e consequências ecológicas. Muito já se sabe a respeito da toxidade desses compostos e dos malefícios causados, variando desde alterações fisiológicas e morfológicas à mortalidade nos seres que entram em contato direto ou indireto.

        Recentemente foi descoberto outro impacto dos agrotóxicos sobre as abelhas. Calma gente, não se trata sobre mais uma pesquisa que comprova o alto índice de mortalidade desses seres pelo uso dos pesticidas, e sim da dependência química que as abelhas estão desenvolvendo por esses compostos. Um estudo publicado recentemente na revista científica britânica Proceedings of the Royal Society B tem mostrado que as abelhas têm desenvolvido preferências alimentícias por plantações onde determinados tipos de químicos são utilizados. A pesquisa desenvolvida por cientistas da Imperial College London e da Queen Mary University of London constatou que as abelhas que entram em contato com inseticidas neonicotinóides se tornam mais propensas a se alimentarem novamente de plantas com essas substâncias.

        A pesquisa foi baseada em um experimento de 10 dias, onde abelhas tinham a disposição várias fontes de alimento contendo tanto fontes puras quanto fontes contaminadas com neonicotinóides. A escolha por esse arranjo de fontes puras e contaminadas foi feita para simular o ambiente natural das abelhas, que comumente apresentam suas colmeias próximas a campos onde esses inseticidas são aplicados. Foi constatado que as abelhas tiveram maior interesse nas fontes contaminadas com o agrotóxico, passando a se alimentar onde o mesmo se encontrava com maior frequência. Após um tempo, os pesquisadores mudaram os comedouros puros e contaminados de lugar, e mesmo assim as abelhas conseguiram identificar as fontes contaminadas, se alimentando principalmente delas, afirmando a preferência adquirida por esses compostos.

       Neonicotínóides, como o próprio nome sugere, são inseticidas derivados da nicotina. Essa substância é conhecida por promover alterações no sistema nervoso humano, resultando no vício em fumantes. Da mesma forma, o estudo comprova que a substância altera o sistema nervoso das abelhas, causando o vício, além do prejuízo nas funções motoras, memória e navegação desses insetos.

Esses impactos juntos causam uma reação extremamente adversa nas comunidades de abelhas, reduzindo a eficiência na captura de alimentos e até na reprodução, implicando grave risco para a população desses insetos a longo prazo. Além disso, o apetite por plantas com esses compostos as expõe a outros aditivos químicos utilizados na agricultura, visto que são utilizados diversos produtos em uma mesma cultura. Essa combinação de químicos apresenta alto risco para a população das abelhas, grupo de insetos que vem sendo cada vez mais prejudicado pela aplicação de agrotóxicos.

        O uso de neonicotinóides tem um grande histórico destrutivo com as abelhas, onde em diversas ocasiões foi observado que sua aplicação gerou altos índices de mortalidade e desaparecimento de colmeias em diversas regiões do mundo, como nos Estados Unidos, Alemanha, França, Itália e outros diversos países. Por esse motivo o uso de alguns tipos de neonicotinóides tem sido proibido em vários países, restantes poucos, menos agressivos, ainda utilizados.

        Dada a grande importância ecológica (sem falar na econômica, uma vez que sua presença é indispensável na polinização de muitas culturas) desempenhada pelas abelhas, considerados por inúmeros cientistas indispensáveis para a vida, faz se necessário a elaboração de novos estudos e testes a respeito dos neonicotinóides ainda utilizados e seus impactos ambientais. O que se pode afirmar, de fato, é que os agrotóxicos garantem cada vez mais prejuízos ao meio ambientes e ecossistemas naturais à medida em que se avançam nos estudos e pesquisas sobre as substâncias químicas.

        Equilibrar o meio ambiente e a produção de alimento tornou-se uma luta diária do Engenheiro Ambiental e protetores do meio ambiente. É de suma importância que a sustentabilidade esteja presente em todos os setores da economia e respeitar a natureza é o caminho para se atingir o equilíbrio e garantir a sobrevivência dos recursos naturais para as gerações futuras. Por isso, estudos e pesquisas cada vez mais aprofundadas devem ser feitas para que seja dimensionado os impactos sobre o meio ambiente causados pelo homem. Assim, poderemos atingir o crescimento sustentável, mantendo a qualidade de vida e os ecossistemas em harmonia com os seres humanos.

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